segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Das experiencias em geral

Aos poucos vou descobrindo as funções das coisas na minha recente vida. É curioso descobrir a intensidade dos sentidos e dos sentimentos, e curto senti-los. As dores, os amores, os prazeres. parece tudo tão encantador que não me dá vontande de perder as oportunidades que a vida me apresenta.
É encantador, por exemplo, sentir a pele ardendo de sol. O cheiro do creme para queimaduras me parece agradavel, sem contar a cor rosada, tal qual a minha barriga. Por conta dela, inclusive, sinto mais prazer em colocar roupas que ela tinha vergonha de colocar. Quando era com ela, as calças lhe apertavam as banhas. Minhas mãos ainda estão avermelhadas do sol e tenho agora uma marca nos ombros do biquini.

A dor da picada da vacina contra a rubéola foi apavorante. Entedi o pânico que ela sempre teve de agulhas e injeções, apesar de não fazer muito sentido. Michel pegou a minha mão e deixou com que eu a esmagasse enquanto o enfermeiro aplicava saúde no meu braço direito. Foi uma dor cheia de prazer, porque sei que essa dor me deixará com saúde no final.

O aperto da cólica arrepia todo meu abdome. Sinal do ciclo se refazendo dentro do meu corpo, sangue, fertilidade, sangue outra vez. O prazer de ser mulher, em todos os sentidos do prazer de ser mulher (como um forte abraço lhe tomando todo o corpo...uma profunda intimidade) é o meu preferido.

As aulas de português me tomaram numa abrupta vontade de expandir o conhecimento dos alunos. É apenas um aluno para português, um para história, mas é tudo que me dá realização (sinto que esta realização sera maior quando a biomedicina entrar na minha vida. E isso é algo tão real na minha imaginação...).

As pessoas me passam uma energia muito boa. Sei que elas não sabem que a mudança não foi só externa, mas logo elas perceberão. Eles dedicam um carinho muito grande à mim, como se eu ainda fosse ela. Ela vivia uma vida tranquila no presente em que ela se foi; amigos, faculdade pública, um namorado que a ama...É incrivel como ele é encantador, logo quando eu tinha um dia de nascida ele estava do meu lado dizendo o quanto eu estava mais bonita. Mais bonita comparado a quanto? Agora sou só eu, a partir daquele dia...é engraçado ser bonita para alguém quando see stá ainda meio feia. Foi uma alegria que só uma mulher, no sentido mais feminino, sabe como é...

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Da primeira vez que comi

Fiquei me olhando por muito tempo no espelho outro dia. Devo ter pedido umas duas horas sentada de frente para o espelho do armário. Logo atras dele, podia ver as fotos dela. Um mural cheio de fotos dela e dos amigos que agora são meus. Tem uma foto, bem no meio do mural, dela. Acho que é a foto mais bonita que ela podia ter escolhido. Ela usava uma camiseta preta escrita UFRJ, a faculdade que vou estudar a partir de agosto (Letras. Literatura. Mais uma coisa que temos em comum, o fascínio pelas palavras, pela leitura...Apesar de que esse lance nunca foi a minha praia, e, quer saber? Nem a dela...). Olhei aquela foto, olhei pra mim no espelho...Foto-espelho-foto-espelho... Minha mãe, então, me chamou pra tomar mais uma de suas sopas.
Nossa, aquelas sopas tão gostosas e tão cansativas...Não me satisfazem, nao me deixam bem, enfim...Tudo que elas conseguem provocar é aquela sensação de engano no estomago que...começou a doer agora!

Já sabia das crises de dor de estomago dela, gastrite crônica. Ouvi minha mãe falando, entre Coca-Colas, Buscopans, Atroverans e Mylantas que era falta de comida de verdade. Entre tantos remédios e dores, acabei dormindo.
Acabei sonhando com o dia em que aquela foto do mural foi tirada. Era um dia de festa, aniversários de um dos amigos dela. Tinha um bolo e alguns quitutinhos pra beliscar. Neste dia, foram tiradas muitas fotos. Neste dia, como nos outros, ela comeu os quitutinhos, o pedaço de bolo, talvez um sanduíche lá pela faculdade pra encarar uma tarde de biblioteca...
Acordei com fome e mais dor no dia seguinte. Como todas as noites, sonhei com pães e bolos, pedaços suculentos de carne vermelha, frango, camarão. Levantei da cama com a sensação de que tinha um boi no meu estômago. A dor me acompanhou durante aquele e o dia seguinte. Na mesa da sala, pães, almoços robustos, cachorros-quentes no jantar. Não era só a dor...
Fome!
Num ato de revolta, depois de passar mais alguns momentos (não sei ao certo quanto tempo fiquei) na frente do espelho do armário, e depois de olhar mais diversas vezes para a foto dela no mural, arranquei tudo aquilo que me impedia de comer. E dessa vez, ia colocar uma colher na boca.

Foi nesse momento que tive uma relação muito íntima com um órgão que eu ainda não conhecia: a minha língua. Depois da primeira linguada para o meu reflexo no espelho, passou a ser uma grande diversão ver até quanto minha língua podia se esticar sem eu sentir a nova articulação. Esticaesticaestica e puxa! E eu pude ver que a minha língua é rosa, assim como todas as línguas de todas as pessoas. E eu passei a ver o quanto eu podia abriri a boca sem sentir a nova articulação. Abria e fechava, primeiro muito timidamente e depois super a vontade. Posso colocar uma colher, que seja, dentro da minha boca.
Foi hoje que paguei um almoço para o Michel no shopping. Escolhi o restaurante, o que eu a comer. Olhei pra colher, estranhei...nem sabia como se usava. Aquele pedaço de plástico me chamou atenção por um tempo, quando meus olhos fitaram outra cena: a do Michel usando a mesma colher para mergulhar no strogonoff e trazer cheia de creme de leite e pedaços de carne até a boca. Tentei fazer o mesmo. Enfiei a colher naquele batatão enorme e ela veio cheia de creme de queijo e alguns pedaços de batata. Nossa, como eu vou socar tudo isso dentro da boca? Nas mesas que nos cercavam, todos faziam o mesmo movimento (alguns seguravam aqueles sanduíches gigantes do McDonalds com guardanapos e enfiavam quase todos boca adentro, e senti minha boca querendo fazer o mesmo movimento): colher no prato ou na batata, colher cheia de comida, colher na boca, colher limpa.
Tentei imitá-los. Primeira tentativa: metade do queijo caiu de volta na batata. Segunda tentativa: metade do pedaço da batata caiu de volta na batata. Terceira tentativa: a outra metade que sobrara na colher caiu da minha boca, mas na bandeja.
Ah, que desespero! Pessoas poderão me apontar na rua! Uma mulher de 23 anos que não sabe comer! Mas peraí...Eu realmente não sabia como comer de colher! Sei manusear um canudo como ninguém numa sopa de legumes, mas uma colher? Ah, por favor, que negócio mais esquisito!
Foi de raiva que soquei o pedaço de batata na boca. E outro. Mais outro. E outro. Huuuum. Quero mais. Nossa, isso é mto louco. Mais outro. Barriguinha cheia.
Pude sentir o estomago sorrindo. É engraçado, mas ele tem uma vida além da minha. Ele reclama de fome e de dor. Aliás, meu estomago é um ranzinza de primeira!
Dali para outros pratos, outros quitutinhos, não vai demorar tanto. Nacser de novo é complicado. Ataptar a uma vida que existia quando você ainda não era você é muito complicado. Acho que só eu sei que eu não sou ela. Não, não sou. Mas isso é segredo.
(Ah, a dor? Passou! Nada que um pouco de comida propiamente dita, não acham? Agora tenho que voltar ao espelho, estou descobrindo coisas interessantíssimas sobre mim)

terça-feira, 22 de julho de 2008

Do anjo mais velho ou da declaração de amor

"O dia mente a cor da noite
E o diamante a cor dos olhos
Os olhos mentem dia e noite a dor da gente"

Enquanto houver você do outro lado
Aqui do outro eu consigo me orientar
A cena repete a cena se inverte
enchendo a minha alma d'aquilo que outrora eu deixei de acreditar
tua palavra, tua história
tua verdade fazendo escola
e tua ausência fazendo silêncio em todo lugar
metade de mim
agora é assim
de um lado a poesia o verbo a saudade
do outro a luta, a força e a coragem pra chegar no fim
e o fim é belo incerto... depende de como você vê
o novo, o credo, a fé que você deposita em você e só
Só enquanto eu respirar
Vou me lembrar de você
O Teatro Mágico
Tenho certeza que ela sentiria a sua falta...